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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O anjo-fog

O anjo tornou-se parte —
é mais que fog, é anjo-arte.
Urhacy Faustino
Do livro Gênese revisitada – O anjo-fog

quarta-feira, 2 de março de 2011

O viés da alta-costura de Maria Adelaide Amaral.

Dificilmente acompanho novela. Raras exceções como “Ciranda de Pedra” de Alcides Nogueira, pela delicadeza e elegância que conduziu a trama baseada no romance de Lygia Fagundes Telles. E atualmente a nova versão de Ti Ti Ti, de Maria Adelaide Amaral que deu vida nova aos personagens das novelas Ti ti ti e Plumas e Paetês, ambas de Cassiano Gabus Mendes e ambas da Rede Globo.
Nesta trama, Adelaide conduz, de forma muito bem humorada, a trama principal (Valentin e Jacques Leclair), como, também, as paralelas são muito bem cuidadas e construídas, mas o que me leva a escrever é a trama: Thales versus Julinho. Maria Adelaide está construindo estes dois personagens com um grande esmero e veracidade. Parecem pessoas da vida real. Parece com a vida daquele meu amigo que na adolescência era o maior pegador e depois se deparou com uma nova realidade. Que se assustava por eu me qualificar como sexual e não dentro de uma das duas gavetas hetero ou homo. Como se a vida não tivesse possibilidades. E Num dia qualquer de sol assim, numa noite qualquer de lua assim, e assim, de repente, ele se dá conta de que está amando o nosso amigo de baladas.
Sabe o cara machão que jamais ousaria pensar: nossa será que sou gay? Que jamais permitiria olhar para outro cara e ter tesão? Pois é, Thales é assim, o cara lindo, cobiçado por todas, desejado por todas e, num belo dia escuta o coração batendo acelerado: você está apaixonado e não é pela garota linda e gostosa da faculdade e sim pelo seu cabeleireiro. O mundo para! Pode ter certeza de que para. Adelaide não esta exagerando. Está sendo extremamente coerente e levando ao ar uma ótima discussão. O preconceito está, em primeiro lugar, dentro de nós mesmos.
O contraponto é, sem dúvida, perfeito: o carinha assumido, bem resolvido, que está sofrendo e odiando estar apaixonado por um (ex) hetero, ou um quase homo, enfim o cara que ainda está em cima do muro e não tem certeza para que lado vai pular ou melhor não sabe como pular sem se machucar. Por que a escolha já esta feita. Não há volta.
Está sendo muito bom assistir a construção desta trama. Armando Babaioff encarna com total entrega o Thales. Ora sensível e apaixonado, ora sem saber como resolver isso dentro de si mesmo. Suas dúvidas, seus desejos, seus receios, sua falta de coragem de ser quem realmente é. E, principalmente, o medo de não saber como o novo Thales vai ser visto e aceito. A angústia de querer o Julinho, o encanto de ter o Julinho, o desespero de perder o Julinho, o seu primeiro amor assumido.
Enfim esperamos que nesta novela a Rede Globo permita que Adelaide leve o romance dos dois às ultimas consequências, que aconteça de vez beijo gay em novela, porque isso ajuda a clarear o mundo gay, contribui para a aceitação dos gays na família, ameniza preconceitos, porque em quase toda família tem gay. O mundo está bastante gay e os gays pagam impostos, os gays fomentam vendas em shoppings, os gays estão em todas as profissões e, espantosamente, em pleno, século XXI ainda é tabu um beijo entre pessoas do mesmo sexo. Temos que descortinar os olhos, temos que abrir para o novo, visto que nem é novo, pois sempre existiram pessoas amando pessoas do mesmo sexo. Vide Alexandre o grande, ou a vida de Rimbaud e Verlaine. Enfim, no mais a vida é bela e nós somos dúvidas, incertezas e divagações...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

De insistência: o reencontro com o anjo-fog



p/ Leninha, Eduardo, Patrícia e Jorge, com pureza

Sabe encanto? Céu estrelado e noite de conto de fadas? Dormir aconchegado e acordar com orquídeas vivas e floridas no tronco de árvores frondosas? Então, árvores frondosas e protegidas por uma fada de riso criança e olhar inocente! Árvores frondosas como deveriam ser todas se nós protegêssemos o meio ambiente. Árvores frondosas, antigas e sólidas como deveriam ser a amizade e o amor. Orquídeas floridas — apresentadas pela fada menina a nós, seus quatro visitantes — como deveriam ser os dias coloridos e singelos.

Há muito tempo não vejo encanto! Há muito tempo, não durmo tranqüilo. Na verdade, há muito tempo nem durmo (são cinco horas da madrugada agora!). Tem sido uma busca constante por uma identificação, seja de alma, de olhar, de pensamento. Algo que me acene, com uma possibilidade e compreensão de um mundo que vislumbro. Até mesmo o elemento poético, que durante muito tempo me acompanhou tem ficado de lado. Eu comecei a ver as coisas como elas são e não como costumava querer enxergá-las. A poesia deixou ter a minha compreensão há algum tempo. Lastimável eu sei! Sempre quis acreditar no anjo. O anjo que chamei de fog e que desmedidas vezes me foi tênue o suficiente, mas há algum tempo se tornou, vago e talvez — e eu odeio advérbios. Esvaiu-se como a fumaça de meu cigarro. Imprevisível. Sem data de retorno.

A vida ganhou um contexto de duplo sentido, como no poema de Leila Míccolis: “a vida é um constante exercício de mãos criando asas, de pés pisando em brasas". Os tais pés pisando em brasas que eu relutei por não tê-los e que, calejado pela vida, eles brotaram em mim, quase que, como a perda da virgindade ou a idade que avança: inevitáveis... Todavia brotou intenso, pesado não como a crise da meia idade (eu não tive a comum crise dos quarenta), mas como a total perda da minha ingenuidade. A característica que me identificou durante minha vida toda. Recordo-me de Leila me dizendo há vinte e um anos atrás: “sua principal qualidade e seu pior defeito: sua ingenuidade”. Eu sempre acreditei em verdades! Há poucos anos (acho que há cinco anos) eu comecei a ver que não existem verdades absolutas, e isso me frustrou muito. Eu achava o sentimento incontestável, como é o amor de uma mãe. Eu concebia a amizade intocável, como são intocáveis os filhos da coruja. E há pouquíssimo tempo eu me dei conta que tudo tem diversos lados e que não é como a mangueira frondosa, que, se protegida, todo ano floresce, dá frutos e se perpetua. É um Urha antes e um Urha depois de cinco anos atrás e, juro, eu me amo mais quando penso no ser que eu era antes de abrir os olhos. Antes de duvidar. Eu tive um professor que dizia que a dúvida é o começo da investigação intelectual, o começo do saber. Mas, eu odeio duvidar!

O abrir das cortinas se deu de forma inesperada e traumática. Um trauma tão forte que me perco ou deixo de fazer as coisas que mais amo: como escrever a vida de meus vampiros Arthur e Ita (o amor da dicotomia: bem versus mal, o que só é lindo em teoria) ou admirar minhas abelhas indo e vindo para a colméia com suas patinhas cheias de pólen.

Naquela noite de sexta e no amanhecer de sábado, eu reencontrei com meu passado, com minhas crenças, com o anjo-fog quase personificado e acordei despido da sensação que me assusta: destes pés que pisam brasas. Eu acordei ingênuo e menino de novo. Clima? Lua? Orquídeas? Amigos? Magia? Encanto? Asas? Enfim, dúvidas, incertezas e divagações.