terça-feira, 31 de janeiro de 2012

nós ou nozes? — sei do gosto, mas só lembro que existe no natal

 




... Nem mesmo o perfume de tantos anos eu reconheço! Tornou-se apática e estranha a tua presença... Como guardados antigos — coisas amorfas, passadas, mortas, mofadas — que, de repente, ao abrir uma caixa esquecida, nos saltam aos olhos. Até dá uma certa ilusão de saudade, mas, de tão remota, nem mesmo remonta à emoção vivida... É, eu te esqueci! Me lembro agora que fiz tanto esforço para isso, mas nem mesmo sinto o peso do sofrimento da época. Tempo! Ah, o tempo!, quem diria, seca tudo. Nem chagas, nem cicatrizes... Eu te conheço, eu sei. Mas é tão confortável saber que te esqueço assim que for embora.

Urhacy Faustino

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Estado I




Insone. É, minha vida tem sido de insônias. Antes, dormir era perder tempo. Hoje, é uma graça que pouco recebo.

É certo que não gosto de dormir a noite. Ela é dos meus fantasmas e tenho tantos! Sensações, vultos tênues, silhuetas, fog. Ah, convívio de anos.

Surge o sol. Eu, vampiro, devia dormir, mas não tenho sono. Chega-me outra noite, e um novo conluio com os habitantes do escuro. Tem sido assim: dois sóis para um desmaio. E o resto, desespero.

Urhacy Faustino

domingo, 29 de janeiro de 2012

colibri

Toca em mim,
dou flores
precoces.

    sábado, 28 de janeiro de 2012

    Exceção


    Minha avó tinha um contentamento insano
    em um, único, dos 365 dias do ano.
    Nos outros era resignada
    em suas tarefas sagradas:
    o cuidadoso cultivo de flores,
    para alimentar borboletas e beija-flores;
    a mão firme e sempre coesa
    em cada ponto do crocê da mesa;
    e o preparo dos doces em conservas,
    todos aromatizados com finas ervas.
    Neste dia,
    até champanhe bebia
    entre os filhos, netos, bisnetos e noras:
    ultrapassando seus limites de velha senhora,
    tudo era permitido na grandiosa ceia de natal,
    o seu dia literamente desigual.

    Urhacy Faustino

    quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

    Distanciamento crítico

     

     

              "Falta ao nosso desejo a música erudita"
                                      Rimbaud

      E Mozart?
      Enquanto o gênio mal tinha o que comer
      o que fazias?
      Na certa ouvias os seus réquiens
      e choravas de emoção...

                                         Urhacy Faustino

        Poema do livo: "Sonhos e Confiscos", Blocos, 1997, RJ

    quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

    consciência

      Cansei de levar o mundo nas costas,
      de pisar em ovos
      e segurar barras.

      Agora quero uma cama de pregos,
      uma colcha de arame farpado,
      tachinhas nas luvas
      e cravos nos chinelos.

      Abrindo feridas,
      posso cicatrizá-las.

                Urhacy Faustino
      Poema do livo: "Primeira antologia dos poetas internautas", Blocos, 1997, RJ

    terça-feira, 24 de janeiro de 2012

    culturas




      Anos a fio, sem ter planejado,
      cultuando figuras de linguagem —
      ametistas amadurecendo violáceas
      O tempo preciso para fazer cria.
      Depois cio.

                                                                    Urhacy Faustino

      Poema do livo: "Sonhos e Confiscos", Blocos, 1997, RJ

    segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

    Haicai




      Os meus sentimentos

      — como origami em arame —

      sempre em movimentos

      Urhacy Faustino

      Poema do livo: "Sonhos e Confiscos", Blocos, 1997, RJ

    domingo, 22 de janeiro de 2012

    concorrência



       

      O pontilhismo pode ser obra cara,
      mas não tão rara
      quanto as joaninhas.

       

                  Urhacy Faustino - Poema do livo: "Sonhos e Confiscos"
                  Blocos, 1997, RJ

                sábado, 21 de janeiro de 2012

                COMO ÁRVORES: TROCANDO DE FOLHAS

                 

                Era uma pálida idéia, ou uma ingênua vontade,
                de certa forma, um começo leve, sem elaboração...
                Como em todos os amores nutria-se de palavras belas,
                momentos que, tantas vezes, eram apenas silêncios.
                Não se pensava que tapando as diferenças
                abriam-se sepulturas para se enterrar depois.
                A frustração ou o desencanto era visto como saudade,
                mas era um imenso vazio tão frio e perdido
                como o iceberg que inicia a viagem pelo oceano,
                até se desfazer e deixar de ser, ou se transformar.
                A palavra não fazia sentido no contexto,
                porque não se pode transformar o que não existe.
                Os olhos não podiam ver que a alma penava,
                e o coração não tinha força para gritar ou rebelar-se...
                A gente não é mais o mesmo,
                e nem quer mais ser mais, mesmo.

                                                                                            Urhacy Faustino

                sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

                animais de estimação



                   

                  Cães e gatos
                  nunca entraram na minha casa.
                  Talvez porque papai achasse
                  que bastava eu e meus irmãos.

                   

                  Urhacy Faustino - Poema do livo: "Sonhos e Confiscos", Blocos, 1997, RJ

                quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

                a olho nu





                                  Ontem vi a lua
                                  cobrindo o sol, em plena rua,
                                  me disseram ser um eclipse.
                                  Para mim era coito, ipsis litteris.

                                                                                           Urhacy Faustino Poema do livo: "Sonhos e Confiscos", Blocos, 1997, RJ
                                 


                              quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

                              A alma é que estraga o amor *



                              Tem sido, então, a alma a minha destruição.
                              Quero antes de tudo a cópula do espírito,
                              o encontro quente e úmido da sua essência.

                              Seria Deus um grandíssimo amante egoísta,
                              ao guardar, para si, a compreensão das almas?

                              Antes de tudo quero a comunhão do sagrado,
                              que seja, eu, um maldito condenado e profano,
                              mas preciso venerar o corpo e possuir a anima.

                              (aos 120 anos de * Manuel Bandeira
                              e aos amores que a vida me deu)

                                  urhacy faustino

                              terça-feira, 17 de janeiro de 2012

                              Genes recessivos

                               

                              Nem era inverno
                              e o pasto já estava seco.
                              As vacas pastavam
                              a grama descorada.
                              Ressentiam.
                              Penso que ruminavam
                              sonhando o gosto do verde,
                              que veio para os meus olhos.

                               

                                Urhacy Faustino - Do livro: "Sonhos e confiscos", Blocos, 1997, RJ

                              segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

                              frágil

                                 

                                Foi sem querer que  quebrei
                                a xícara de porcelana inglesa,
                                aquela que eu te servia chá
                                nos momentos de paz,
                                ou veneno, em doses mínimas,
                                pra te matar a longo prazo.
                                Juntar os cacos, jamais.
                                Inteiro visto-me de gato,
                                olho já cerrado na caça,
                                atento a novos cios.

                                                                         Urhacy Faustino
                                Poema do livo: "Sonhos e Confiscos", Blocos, 1997, RJ

                                domingo, 15 de janeiro de 2012

                                laços

                                   

                                  vez por outra
                                  faço feixe
                                  com as palavras
                                  como lenhador
                                  com as lenhas
                                  e carrego-o nas costas
                                  vez em quando
                                  cai um graveto
                                  e meu caminho
                                  vai ficando assinalado.

                                          Urhacy Faustino
                                  Do livro: "Laços e embaraços", Edicon, 1989, SP

                                sábado, 14 de janeiro de 2012

                                o dia do caçador

                                  Não é o colibri que passa apressado na minha casa,
                                  é o colibri que beija, sexualiza a flor batendo asa.
                                  Não é a poesia que sai de uma noite insone
                                  como que no desespero falasse seu nome.
                                  Não é a vida que se leva rasgada de muitos amores,
                                  é o amor regado de duas vidas ímpares e multicores.
                                  Não é a palavra certa após o ato falho,
                                  é o conjunto dos gestos que verbaliza o trabalho.
                                  Não é a estrutura perfeita que faz o verso
                                  é o subtexto que se descobre imerso
                                  nas entrelinhas de uma obra aberta.
                                  Não é a perseguição em lúcido desvario,
                                  não é a idéia brilhante em descoberta,
                                  mas a escuridão deflorada pelo desafio.

                                  Urhacy Faustino

                                   

                                                 

                                                                          sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

                                                                          Eu sou a garça branca que vive em bando

                                                                            é sempre verde o meu olhar
                                                                            sobre o povo os campos e o mar.
                                                                            não rumino miséria nem sentimento hostil
                                                                            sobre estas terras descobertas num abril.
                                                                            tenho — sem vergonha de dizer —
                                                                            uma inexplicada paixão extremada,
                                                                            por esta minha pátria amada.
                                                                            minha terra tem olavo castro alvares e palmeiras,
                                                                            tem helena maju kk cida sandra nilza banderas
                                                                            minha terra tem cecília coralina alice e garças,
                                                                            tem leminski behr gutfreind quintana graças.
                                                                            minha terra tem leila e uma enorme riqueza
                                                                            de sentimentos, letras, versos e beleza.
                                                                                           Urhacy Faustino

                                                                          quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

                                                                          haikuras

                                                                           

                                                                          O casulo feito
                                                                          bicho dentro dele dorme
                                                                          vestido de seda.
                                                                          ======
                                                                          De papel crepom
                                                                          eu, origamicamente,
                                                                          desdobro mulheres.
                                                                          ======
                                                                          Muitos ventos sopram.
                                                                          Dentro e fora de mim uivam
                                                                          lobos que não sou.
                                                                          ======
                                                                          Se planto parreiras,
                                                                          nestas videiras vermelhas,
                                                                          eu colho ametistas.

                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

                                                                          exposição de desmotivos ou imposição de motivos

                                                                           

                                                                           



                                                                               Não há porque amar Dante
                                                                               se é Rilke quem me seduz.
                                                                               Não há porque amar Michelangelo
                                                                               se são Monet, Miró e Van Gogh
                                                                               que fascinam as meninas
                                                                               — dos meus olhos.
                                                                               Não há porque amar Charllote
                                                                               se é Emily quem me tem por horas.
                                                                               Não há porque explicar a obra de arte,
                                                                               muito menos o amor.

                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          domingo, 8 de janeiro de 2012

                                                                          perCURSO

                                                                           

                                                                          joaninhaastronauta (joaninha, quadro de Urhacy Faustino)

                                                                           

                                                                          Da roça à urbe,
                                                                          das vacas e seus úberes,
                                                                          ao teclado do micro.

                                                                          Do seio materno
                                                                          — corte no cordão umbilical —
                                                                          ao novo.

                                                                          Parte rural,
                                                                          outra urbana:
                                                                          inteiro aprendiz de tudo.

                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          sábado, 7 de janeiro de 2012

                                                                          inventário de safras

                                                                          I

                                                                          Ceifar o trigo;
                                                                          ordenhar a vaca;
                                                                          moer café.

                                                                          Beneficiar o pão;
                                                                          manipular o leite;
                                                                          extrair a essência.

                                                                          Preparar a mesa, da manhã.

                                                                          II

                                                                          Observar lua propícia,
                                                                          plantar, na certa colher:
                                                                          arroz, feijão, hortaliças e flores —
                                                                          não esquecer: colibri precisa comer.

                                                                          Tratar bem galo e suas galinhas
                                                                          para ter ovos e despertador.

                                                                          E rezas para agradecer farturas
                                                                          no almoço e no jantar.

                                                                          III

                                                                          Noite,
                                                                          piar de coruja, longe.
                                                                          Um silêncio quase,
                                                                          não fosse o ruminar dos animais.

                                                                          Pirilampo que se perdeu do pasto,
                                                                          faz-se estrela única,
                                                                          no teto do quarto escuro.

                                                                          IV

                                                                          Cão amigo,
                                                                          para ladrar estranhos.
                                                                          Gatos no telhado —
                                                                          aquecedores de pés em noites de inverno.

                                                                          Livros, muitos deles,
                                                                          espalhados nos cantos certos da casa.

                                                                          E uma avó, cheia de histórias,
                                                                          na mesa de cabeceira,
                                                                          para os dias de preguiça.

                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

                                                                          de boca aberta


                                                                          Em nossas brigas não voam televisões,
                                                                          nem há corporais agressões:
                                                                          o verbo é a flecha que nos perfura
                                                                          mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
                                                                          Trocamos o costumeiro texto sacana
                                                                          por verborrágica luta insana
                                                                          e, se alguém se sente em desvantagem,
                                                                          apela pra figuras de linguagem,
                                                                          misturando metáforas, pleonasmos,
                                                                          com licenças poéticas, no orgasmo
                                                                          ao medirem forças dois titãs.
                                                                          Até que já sem fala, de manhã,
                                                                          mais sedentos que famintos, como taças
                                                                          nos bebemos um ao outro, extasiados
                                                                          de repente sem palavras, embriagados,
                                                                          (eis que a língua se enrola, a gramática falha),
                                                                          nos lambemos em nossa cama de batalha,
                                                                          onde desejos e tesões explodem atômicos
                                                                          em delírios guturais, gozando afônicos.
                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

                                                                          inocência

                                                                          silvanaapminha irmã Silvana hoje em dia 

                                                                           

                                                                          Para Silvana

                                                                          Fui a babá perfeita
                                                                          de minha irmã caçula.
                                                                          E como fui paciente!
                                                                          Colhia espigas novas
                                                                          pra danadinha
                                                                          fazer boneca.
                                                                          Brincando de cabelereira,
                                                                          ela estragava rapidamente todas
                                                                          e queria sempre que eu pegasse mais.
                                                                          Juntos, destruímos milharais...

                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

                                                                          reversão


                                                                          (obra de Portinari)
                                                                          Em toda safra
                                                                          meu pai fazia espantalho
                                                                          para espantar passarinho
                                                                          — heranças do meu avô.
                                                                          Escondido entre os galhos
                                                                          eu vi a vida amadurecer
                                                                          meu pai empobrecer
                                                                          meu avô falecer
                                                                          — rugas fundas, cova rasa...
                                                                          Herdar o espantalho, nunca!
                                                                          Eu bati asas.
                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          terça-feira, 3 de janeiro de 2012

                                                                          transparência

                                                                          Foi-se o tempo
                                                                          em que eu apreciava lágrimas
                                                                          através do espelho.
                                                                          Descobri as gotas de chuva
                                                                          na vidraça.

                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

                                                                          inversão de valores

                                                                          Na minha infância
                                                                          não conheci moeda,
                                                                          se não o celeiro cheio
                                                                          e as vacas gordas.

                                                                          Precisava de roupa
                                                                          trocava algodão por fazenda.
                                                                          Caricia de aliança
                                                                          trocava o trigo pelo ouro.

                                                                          E éramos felizes!

                                                                          Meus irmãos iludiram meus pais
                                                                          com a visão dos novos tempos
                                                                          e modernizaram tudo.
                                                                          Saíram das tetas das vacas
                                                                          direto para as teclas dos computadores:
                                                                          não conseguiram ordenhar as máquinas.

                                                                          Hoje trocamos dívidas.

                                                                          Urhacy Faustino

                                                                          domingo, 1 de janeiro de 2012

                                                                          Olavo em extremos ou Bilac revisitado

                                                                          (Obra de Stock)

                                                                          (paródia de "In Extremis")

                                                                               Sempre gozar assim! Sempre gozar em noites
                                                                               Assim! de lua assim!
                                                                                                         Que despida pernoites,
                                                                               Quente! prontos aos meus os teus lábios selados,
                                                                               E molhando os teus os meus toques safados... 

                                                                               E uma noite assim! de lua assim! Sim, verão
                                                                               Se fará sempre incêndio, sem meia-estação!
                                                                               Chamas, brasas, faíscas, rubro fogaréu!
                                                                               Gemidos nada brandos! O meu pau como troféu
                                                                               Destrancando os portais, arrombando o casebre... 

                                                                               E em teu íntimo, o céu. E este afã! E esta febre!
                                                                               Nós dois... e, entre nós dois, amante e libertino,
                                                                               A acercar-me de ti, sempre mais, o destino... 

                                                                               Eu com o membro febril a pulsar — vigoroso —
                                                                               Por ti, tal o tesão desnorteio de gozo!
                                                                               Tu, fitando mexer entumescidamente
                                                                               O sexo que bailava ainda há pouco, recente,
                                                                               O sexo que foi teu! 

                                                                                                       E eu dormindo! e eu dormindo
                                                                               Sonho-te, e sonho a paz, e sonho a luz, sentindo
                                                                               Tão voraz sem ligar ao cansaço que boda,
                                                                               A carícia da foda! a carícia da foda!

                                                                                                                                  Urhacy Faustino